05-05-2016, 08:30 PM
Citar:Você não precisa ter mais do que um bom par de olhos e ouvidos para detectar o que move Eduardo Cunha: uma sede irrestrita por poder político e vantagens econômicas que o levam a desrespeitar sistematicamente as instituições do país. Cunha é um bandido político clássico. Desses que se organizam para surrupiar estatais, abusar do poder para conter investigações, ameaçar inimigos públicos, alterar as regras do jogo a bel prazer, manipular comissões de inquérito e obter o máximo de vantagens ilícitas.
Todas essas ações somadas criaram um dos políticos mais odiados da história republicana. Como é repetido incansavelmente através de diferentes protestos, Cunha é rejeitado por todos aqueles que defendem o governo. E não apenas eles. Na última grande manifestação de oposição à Dilma na Avenida Paulista, como apontou o Datafolha, se 95% das pessoas defendiam o impeachment da presidente, 96% queriam a cassação de Cunha. Eis uma unanimidade.
Um olhar mais apurado, no entanto, identificará similaridades no tabuleiro. Releia o que é citado no início desse texto sobre o que move o presidente da Câmara. Achou a coincidência? É exatamente a mesma coisa que move o Partido dos Trabalhadores. Cunha é um Lula em formação - sem grandes aptidões para capitalizar o populismo, sem organizações de classe em sua defesa, sem um histórico de militância operária que lhe dê um par de sindicatos na manga, sem o apoio de presidentes latino-americanos e sem a chave da máquina pública ao seu dispor. O que move suas ações, no entanto, se repete do outro lado - e ainda pior: movidas por uma ideologia, na forma de uma organização com incontáveis adeptos e vitórias em disputas para o cargo mais alto do país. Uma sede irrestrita por poder e dinheiro.
Um cínico poderia dizer que Cunha foi eleito democraticamente, não inventou a corrupção, está longe de ser nosso único problema e que seu afastamento não acabará com as mazelas na política. Pouco importa. Sua queda deve ser comemorada e prova aquilo que qualquer sujeito sem apego com políticos de estimação vem repetindo ao longo dos últimos meses: apesar de todas as tentativas alopradas na direção contrária, as nossas instituições permanecem inabaladas. E é por isso que chegou a hora de dar fim a esse papo canastrão de que há um golpe em curso por aqui.
Tchau querido.
- Rodrigo da Silva, editor do Spotniks.
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