Mensagens: 3.326
Tópicos: 297
Registrado: Jun 2002
Reputação:
13
04-21-2018, 07:57 PM
(Esta mensagem foi modificada pela última vez a: 04-21-2018, 08:21 PM por Góris.)
Tópico para matérias diversas de história que não gerariam material o suficiente para terem um tópico próprio, mas que podem ser interessantes para o pessoal.
Então, vamos começar com o pouco conhecido Imperador dos EUA:
Norton I, Imperador dos Estados Unidos
Cardoso - Contraditorium
150 anos atrás era coroado o primeiro e único Imperador dos Estados Unidos da America, talvez o maior de todos os malucos-beleza. A história é comumente tomada como ficção, por ter sido popularizada em Sandman, de Neil Gaiman, mas é incrivelmente verdadeira.
Joshua Abraham Norton era um inglês morador dos EUA que foi muito rico, até perder tudo em um investimento mal-planejado, importando arroz do Peru. A batalha judicial com os credores o desestabilizou mentalmente, a ponto de sumir do mapa, levando anos para voltar a São Francisco.
No dia 17 de Setembro de 1859 ele enviou uma proclamação a vários jornais, onde se declarava Norton I, Imperador dos Estados Unidos. Achando que era brincadeira, alguns publicaram.
Outros decretos se seguiram, onde ele dissolvia o Congresso, dava ordens ao exército, etc. Claro, ninguém prestava atenção. Era apenas um sujeito arruinado, quase um sem-teto, vivendo em um quarto de pensão cuja diária custava 50 centavos.
Só que Norton era uma figura extremamente simpática. Ao invés de expulsá-lo os comerciantes o recebiam bem. Com o tempo o Imperador virou figura folclórica. Ele coletava impostos (geralmente 50 centavos) e era convidado a comer nos melhores restaurantes.
Depois disso placas de bronze eram colocadas na porta, dizendo “Indicado por Sua Majestade Norton I, Imperador dos EUA”. Isso aumentava a freguesia, e logo Norton tinha mais convites do que tempo. Peças e Concertos sempre reservavam um camarote para ele.
Fora os “impostos” a única fonte de renda de Norton eram seus bônus imperiais e papel-moeda. Não só o dinheiro que ele emitia era considerado item de colecionador, como vários estabelecimentos comerciais aceitavam as notas.
Norton inspecionava os bondes, escolas e vias públicas, mantinha correspondência com outros monarcas e dizem até ter se encontrado com Dom Pedro II. Seus decretos iam dos mais loucos a ordens como criar uma Liga das Nações e construir uma ponte na Baía de São Francisco – considerado na época uma idéia doida.
Ele usava um fardão imperial, doado por um general do Presídio de São Francisco, quando ficou rasgado demais, ele ganhou outro, da municipalidade.
No censo de 1870 ele aparece listado como “Imperador”.
Em 1967 Norton foi preso por um policial babaca de nome Armand Barbier, que o tentou levar para um manicômio, para internação involuntária. Uma série de editoriais nos jornais atacou a atitude do filho da puta. Norton foi solto, e Patrick Crowley, Chefe de Policia fez um pedido de desculpas formal para o Imperador, em nome de toda a Força Policial:
“Ele não derramou nenhum sangue, não roubou ninguém, não pilhou país nenhum. Isso é mais do que pode ser dito de outros Imperadores”
Depois disso todos os policiais de São Francisco passaram a saudar o Imperador, quando passavam por ele nas ruas.
Em 8 de Janeiro de 1880 aos 61 anos Norton estava a caminho da Academia de Ciências da Califórnia, onde faria uma palestra, quando teve um ataque e morreu, na rua. Os jornais estamparam manchetes com o falecimento. O San Francisco Chronicle publicou “Le Roi Est Mort”, junto com um lindo e respeitoso obituário.
Todos sabiam que ele era um louco que se achava Imperador, mas um maluco inofensivo e querido, que nunca mostrou ganância, crueldade ou má-intenção. Norton era o pequeno agente provocador, a pequena dose de aleatoriedade que torna a vida menos monótona. E também não era nenhum golpista, como alguns chatos alegavam.
Suas posses se resumiam a uma coleção de chapéus, cinco ou seis Dólares em moedas, US$2,50, uma bengala, uma espada e alguns papéis. Ele ia ser enterrado como indigente, mas a Câmara de Comércio da cidade intercedeu e pagou por um funeral digno. Norton I Imperador dos Estados Unidos foi enterrado com honras de chefe de estado. Seu cortejo foi formado por 30 mil pessoas e teve mais de 3Km de extensão.
Sua lápide traz “Norton I Imperador dos Estados Unidos e Protetor do México”
Joshua Norton mostrou que você não precisa nem sequer ser são para fazer do mundo um lugar melhor.
Fonte: Contraditorium, SFGate e Wiki de Verdade
Se curtirem o texto, dêem uma visita (e view) ao Contraditórium e comentem algo lá, para o autor ver que textos de curiosidades históricas são legais e geram views. Se não curtiram, dêem uma resposta e pararei com esse tipo de material na Hangarnet.
Teste pra ver se o fórum vai mesclar os posts
Xbox One: Jogando Skyrim
PC: Jogando Civilization
Celular: Jogando Fantasy Defense - O jogo sumiu de meu celuar e da Playstore!
Mensagens: 6.813
Tópicos: 250
Registrado: Apr 2008
Reputação:
27
Sensacional! Muito interessante!!!
Mensagens: 663
Tópicos: 13
Registrado: Mar 2011
Reputação:
0
Muito bom! Achei super interessante haha. Poste maisssss
(06-11-2017, 12:02 AM)Gargos ' Escreveu: Quebrava cada articulação dos teus bracinhos e enterrava eles no teu cu.
nem adianta me quotar que não vou responder otário, mas nunca que vc falaria isso na minha frente.
Mensagens: 9.243
Tópicos: 148
Registrado: Oct 2005
Reputação:
10
POSTE MAIS EEHEEHHAAHA MAISSSS
Mensagens: 1.254
Tópicos: 16
Registrado: Dec 2008
Reputação:
1
só vi as imagens mesmo
'-'
Mensagens: 3.326
Tópicos: 297
Registrado: Jun 2002
Reputação:
13
04-29-2018, 01:52 PM
(Esta mensagem foi modificada pela última vez a: 04-29-2018, 01:53 PM por Góris.)
A Mulher-Pirata que aterrorizou a França
Cardoso 03/12/2017
Nossa história começa onde a maioria dos contos de fada termina. É um final feliz, mesmo a noiva tendo apenas 12 anos, mas é o Século 14, os médicos da época não eram exatamente o House e a expectativa de vida era a mesma de um beija-flor. Imagina então como sofriam os beija-flores da Época.
A noivinha novinha se chamava Jeanne Louise de Belleville, era o ano de 1312 e ela juntava os trapos com Geoffrey de Châteaubriant VIII, bretão muito rico de família pobre em imaginação. Oito filhos e nenhum Enzo?
Dois nobres de boa origem, podres de ricos, alta aristocracia, curtindo o clima na Bretanha, aquela região na pontinha da frança. Em breve seria um dos pontos focais da Guerra dos Cem anos, mas por enquanto era só paz e alegria, até que Geoffrey morreu, em 1326.
Jeanne já era uma senhora de meia-idade, com 26 anos e precisava se sustentar e aos filhos. Arrumou um novo marido em 1328, mas o casamento foi anulado em 1330 pelo papa João XXII. Sem problemas, ela cedeu aos avanços de Olivier de Clisson IV, outro nobre podre de rico.
Os dois se deram muito bem, segundo todos os relatos era um casamento feliz, que rendeu cinco filhos. Infelizmente a História como sempre apareceu pra atrapalhar. A Bretanha começou uma guerra civil, com apoio dos ingleses de um lado e dos franceses do outro. No meio de tudo, Jeanne e a família.
Olivier precisava escolher um lado, e indo contra boa parte dos amigos e parentes, escolheu lutar pelo lado da França, o que não ajudou quando depois de quatro tentativas a cidade de Vannes foi derrotada e Olivier capturado.
Como era de praxe, foi cobrado resgate, mas como também havia uma troca de prisioneiros no meio, a cabeça de Olivier saiu muito barato, barato demais e os franceses desconfiaram, até porque ele foi o único nobre bretão que foi devolvido.
Em 1343 rolou uma trégua, todos estavam de novo amiguinhos e Olivier foi convidado para um torneio na França. Você sabe, cavalos, lanças, arqueiros, leitões assados nas fogueiras, Jon Snow, Robin Hood… só que o personagem de ficção aqui é outro.
É, era uma armadilha do Rei Felipe VI. Olivier foi capturado em 19 de Janeiro de 1343, legado para Paris e julgado traidor. Sua cabeça foi separada do corpo em 2 de Agosto de 1343, e para horror da nobreza como um todo, a cabeça foi exposta ao público, coisa que só se fazia com criminosos de baixo escalão.
A notícia chegou até Jeanne. Ela pegou os dois filhos mais novos e foi até Nantes, onde a cabeça de Olivier estava sendo exposta. Ninguém sabe o que ela falou nesse momento, mas o consenso entre os historiadores é que pode ser traduzido por “big mistake”.
Jeanne voltou para casa, vendeu tudo que tinha. Castelos, terras, jóias, tapeçarias, pedras preciosas, iphones, a medida do bonfim, disco do Pixinguinha, tudo. Com o Ouro que arrecadou contratou um exército de soldados fiéis a Olivier.
Sua primeira incursão foi a um castelo comandado por Galois de la Heuse, um nobre local leal aos franceses que reconheceu Jeanne e abriu os portões. Como eu falei, big mistake. As tropas entraram com tudo, Jeanne queria sangue, e teve. Só sobrou um sujeito, deixado vivo para contar a história.
Daí em diante Jeanne e seus homens começaram a aterrorizar castelos e guarnições na região. As tropas do Rei Felipe VI bem que tentavam mas ela estava sempre vários passos adiante.
Depois de um tempo ela começou a ser notada, e receber ajuda de bretões simpáticos à causa de tocar terror nos franceses. Entre os simpatizantes, estava o Rei da Inglaterra, que a armou com uma carta de corso, ou seja: Jeanne era uma pirata a serviço da coroa inglesa.
Um pirata precisa de um navio, já que um PC com BitTorrent provavelmente demoraria a chegar da China, era o Século 14 afinal. Jeanne ganhou três.
Ela pintou os navios de preto e mandou tingir as velas de vermelho. A nau capitânia da chamada Frota Negra foi batizada por Jeanne de “Minha Vingança”. A idéia era aterrorizar suas vítimas. Nada de surpresa, nada de ataques furtivos. As velas vermelho-sangue ao longe significavam morte.
Os três navios atacavam em conjunto e pilhavam sem dó embarcações francesas no Canal da Mancha. Jeanne de Clisson comandava os ataques na linha de frente, abordando os navios inimigos brandindo um machado, seu método preferido era cortar cabeças francesas. Em geral só sobraram uns dois ou três miseráveis para, como sempre, contar a história.
Exceto se fossem nobres franceses, desses ela não tinha nenhuma misericórdia.
Em uma das batalhas seu navio foi afundado. Jeanne conseguiu pular em um bote com os dois filhos mais novos, dos quais não se separava. Sem suprimentos ela enfrentou o mar por cinco dias, remando sem cessar. O menor não aguentou e morreu, mas Jeanne conseguiu chegar até terra firme com o filho sobrevivente.
Nessa época ela era figura conhecida e temida, chamada de Leoa da Bretanha. Nem a morte do Rei Felipe em 1350 a acalmou. Ela continuou massacrando navios inteiros, invadindo e incendiando vilas francesas e barbarizando todo mundo pela frente até 1356.
Provavelmente ela teve um momento de reflexão enquanto cortava a garganta de algum duque ou conde, e pensou “I`m too old for this shit”, e em 1356, 56 anos de idade era BEM puxado. Tão súbito quanto quando começou, acabou a carreira de pirata de Jeanne de Clisson. Aproveitando que tinha um bom pistolão, é bom ser amiga do Rei da Inglaterra, ela casou com Sir Walter Bentley, lugar-tenente de Eduardo III.
Eles se mudaram para Hennebont, na Bretanha, onde Jeanne levou uma vida pacata e sossegada, até morrer em paz, em 1359.
Fonte: Contraditorium
=-=-=-=-=-=-=-=-=-=
Algum amigo da HNet sabe como fazer as imagens diminuírem automaticamente para não quebrarem o texto?
Xbox One: Jogando Skyrim
PC: Jogando Civilization
Celular: Jogando Fantasy Defense - O jogo sumiu de meu celuar e da Playstore!
Mensagens: 3.326
Tópicos: 297
Registrado: Jun 2002
Reputação:
13
05-01-2018, 09:57 AM
(Esta mensagem foi modificada pela última vez a: 05-01-2018, 01:03 PM por Góris.)
Último post neste tópico, infelizmente a forma como a nova skin lida com links - colocando uma imagem no meio - destrói totalmente a já péssima formatação que eu faço. De repente farei tópicos em outros fóruns e só boto links aqui.
Os russosbrutos também amam!
Oleg Ingvarevich frente a Batu Khan - "Poupado em nome de sua rara beleza"
A história da Russia antes de ser a Rússia é bem longa e, de certa forma, brutal e cruel. O Reino de Kiev (atual Ucrânia) era dividido em pequenos principados que constantemente lutavam entre si e, ainda que o povo russo em si fosse adepto de alguma paz e tolerância, as casas governantes eram gananciosas, invejosas e brutais em seus métodos tando de manter o controle de seu povo quanto de amedrontar e punir os inimigos.
Por isso, viviam em guerras feudais e, apesar de haver um rei de Kiev, sem a menor união como povo.
Eis que em 1224 os mongóis invadem a Russia, forçando o povo a se unir contra o poderoso invasor. Contra todos os prognósticos, os russos foram capazes de resistir e, embora tenham sido derrotados, terrivelmente derrotados, as perdas mongóis foram tão elevadas que eles decidiram por uma retirada para agrupar e reunir forças.
Os russos (ou quievitas/quievizes) então, tiveram a oportunidade de se unir e agregar forças, mas quando um, dois, três, vários anos se passaram, viram que os mongóis não voltariam e passaram a se enfrentar novamente em guerras fraticidas.
Eis que os mongóis voltaram, 13 anos depois, no inverno, quando ninguém são esperaria seu retorno e iniciaram uma terrível campanha.
Invadir a Russia no inverno é cortejar a morte! Bom, os mongóis não sabiam disso.
Vale comentar que os mongóis eram um império estranho para nossos tempos. Eles conquistavam, respeitando ao máximo as culturas e organização social dos conquistados, até com relativa tolerância e, muitas vezes, as leis mongóis eram mais benevolentes que as dos próprios conquistados. As taxas dos povos conquistados eram cerca de 10% das riquezas obtidas todos os anos - ligeiramente que os quase 40% de impostos do Brasil atual - mas isso era algo que os russos não sabiam e mesmo que soubessem, provavelmente não se importariam. Afinal, eram russos.
Batu Khan, neto do famoso Gengis Khan, era o líder d Horda Dourada, que iniciou o ataque à Russia.
E ele oferecia, cidade a cidade, a opção: "Se rendam incondicionalmente e serão poupados. Resistam e..." mas no geral, os russos preferiam o "e..." e, cidade a cidade, foram dizimados.
Oleg, Bravo, sagaz e... belo!
Oleg Ingvarevich Krasnyi era o grande príncipe de Ryazan e, como tal, não poderia se render sem humilhar o nome de sua família e, por isso, apesar de tentar de todas as formas negociar com o próprio Batu Khan, ao fim das negociações, liderou seu exercito contra as forças da horda.
Capturado e ferido, Batu Khan em pessoa fez um oferecimento de o poupar e cuidar de suas feridas caso aceitasse servir à horda. Oleg imediatamente amaldiçoou o inimigo do cristianismo e foi ordenado que fosse desmembrado para servir de exemplo aos outros russos, ainda que sua cidade, foi poupada em honra à sua heróica resistência.
Mas tudo era uma armação. Oleg Ingvarevich foi poupado "Em nome de sua rara beleza(*)" e levado para a corte de batu Khan, onde foi prisioneiro/servo/conselheiro do grande khan, talvez auxiliando na conquista de seu povo.
Morto em nome da cristandade e do orgulho russo, Oleg passou 14 terríveis anos como prisioneiro de Batu Khan!
Só 14 anos depois, após a morte de seu irmão e novo Grande Príncipe de Ryazan, ele retornou a seu povo, contando de seus longos e terríveis anos de prisão entre os mongóis e assumindo o trono. Ele governou mais seis anos, até seu filho mais velho, Roma Ingvarevich, ter idade para assumir o trono e se tornou um monge, vivendo seus ultimos anos em meio à humildade, caridade e celibato.
Morto, Oleg, agora com seu nome de monge Kosma, é considerado até hoje um santo em Ryazan. Ouse insinuar que ele era muito bonito para um russo e... Coisas ruins podem acontecer.
Mongóis e russos, grandes guerreiros, mostram que a beleza doma a fera e que o amorrespeito é superior à tudo.
Fontes:
Trívia: A cidade de [url=http://dictionnaire.sensagent.leparisien.fr/Oleg%20I%20of%20Chernigov/en-en/]Ryazan foi criada, ainda nos anos 1.000 por meus ancestrais, Gorislavich ou Gorislavovich.
Mensagens: 3.326
Tópicos: 297
Registrado: Jun 2002
Reputação:
13
08-18-2018, 09:46 AM
(Esta mensagem foi modificada pela última vez a: 08-18-2018, 09:48 AM por Góris.)
A história esquecida do 1º barão negro do Brasil Império, senhor de até mil escravos
Almeida fazia parte de um pequeno grupo de mestiços de origem africana que conseguiram ascender financeira e socialmente
Um próspero fazendeiro e banqueiro do Brasil nos tempos do Império, dono de imensas fazendas de café, centenas de escravos, empresas, palácios, estradas de ferro, usina hidrelétrica e, para completar a cereja do bolo, de um título de barão concedido pela própria Princesa Isabel. A biografia do empresário mineiro Francisco Paulo de Almeida, o Barão de Guaraciaba, não seria muito diferente de outros nobres da época não fosse um detalhe importante: ele era negro em um país de escravos.
No ano em que a Lei Áurea completa 130 anos, vale a pena conhecer a trajetória do primeiro e mais bem-sucedido barão negro do Império, um personagem praticamente desconhecido na História do Brasil. Empreendedor de mão cheia e com grande visão de negócios em um país ainda essencialmente agrário, ele tem uma trajetória que lembra a de outro barão empreendedor do Império, este bem mais famoso: o Barão de Mauá.
Com um patrimônio acumulado de 700 mil contos de réis, que garantia ao dono status de bilionário na época em que viveu, Almeida nasceu em Lagoa Dourada, na época um arraial próximo a São João del Rei, no interior de Minas Gerais, em 1826.
A origem da sua família é pouco conhecida. Filho de um modesto comerciante local chamado Antônio José de Almeida, na certidão de batismo consta como nome da mãe apenas "Palolina", que teria sido uma escrava. "Infelizmente não sabemos o destino de Palolina e a quem ela pertencia, mas, sim, ela era escrava", afirma o historiador Carlos Alberto Dias Ferreira, autor do livro "Barão de Guaraciaba - Um Negro no Brasil Império".
A secretária administrativa Mônica de Souza Destro, trineta do barão, é hoje a guardiã da história da família
O nome, porém, provoca discussões entre os descendentes do barão, já que, por um erro de grafia no registro, "Palolina", na verdade, seria Galdina Alberta do Espirito Santo, esposa de Antônio e considerada pelo próprio barão sua legítima mãe. "Certamente seu pai ou mãe tinham ascendência negra, mas não existe nenhum registro provando que ele era filho de escravo ou escrava", afirma a trineta do barão e guardiã da história da família, a secretária administrativa Mônica de Souza Destro, que mora em Juiz de Fora (MG).
Ainda na adolescência, Almeida começou a vida como ourives fabricando botões e abotoadoras em sua terra natal, na região aurífera de Minas. Nos intervalos, tocava violino em enterros, onde recebia algumas moedas como pagamento e os tocos das velas que sobravam do funeral, que utilizava para estudar à noite. Por volta dos 15 anos, tornou-se tropeiro entre Minas e a Corte, no Rio de Janeiro.
Nessas idas e vindas, ganhou dinheiro comprando e vendendo gado, conheceu muitos fazendeiros e negociantes nos caminhos das tropas e começou a comprar terras na região de Valença, no interior fluminense, para plantar café. Após casar-se com dona Brasília Eugênia de Almeida, com quem teve 16 filhos, tornou-se sócio do seu sogro, que também era fazendeiro e negociante no Rio de Janeiro.
Mônica de Souza Destro/Arquivo da família
Certidão de batismo de um dos 16 filhos do barão: Com a morte do sogro, ele assumiu os negócios e sua fortuna disparou
Após a morte do sogro, assumiu todos os negócios e sua fortuna disparou: comprou sete fazendas de café espalhadas pelo Vale do Paraíba fluminense e interior de Minas. Apenas na fazenda Veneza, em Valença, possuía mais de 400 mil pés de café e cerca de 200 escravos. Levando-se em consideração que ele tinha outras áreas produtoras de café, o barão pode ter tido até mil escravos, segundo Ferreira.
"Não se trata de uma contradição ele ter sido negro e dono de escravos, pois tinha consciência do período em que vivia e precisava de mão de obra para tocar suas fazendas. E a mão de obra disponível era a escrava", explica Ferreira.
"Ainda que nos cause repúdio hoje em dia, o contexto de escravidão era uma coisa normal e a mão de obra que existia naquele tempo", completa Mônica, que prepara uma biografia do seu ancestral, ainda sem data para ser publicada.
Mônica de Souza Destro/Arquivo da família
Imagem mostra uma das fazendas do barão, que teve cerca de mil escravos no conjunto de suas propriedades, o que historiador não vê como contradição: "Essa era a mão de obra disponível"
Em sociedade com outros empreendedores com quem mantinha contato, Guaraciaba tornou-se banqueiro e fundou dois bancos: o Mercantil de Minas Gerais e o Banco de Crédito Real de Minas Gerais. A diversificação empresarial não parou por aí. Em um período em que as ferrovias começavam a rasgar o território nacional, participou da construção da Estrada de Ferro Santa Isabel do Rio Preto (depois incorporada pela Rede Mineira de Viação), cujos trilhos passavam por suas propriedades, em Valença.
A ferrovia, que ligava Valença a Barra do Piraí e se tornou importante para escoar o café do Vale do Paraíba, foi inaugurada por D. Pedro 2º em 1883. Teriam começado aí as boas relações entre Guaraciaba e a família real, que culminariam na concessão do título de barão pela princesa Isabel, regente na ausência do pai, em 1887.
O título foi concedido por "merecimento e dignidade", em especial pela dedicação de Guaraciaba à Santa Casa de Valença, onde foi provedor. Mas entrar para a nobreza tinha um custo fixo e tabelado pela Corte: 750 mil réis.
Sempre atento às oportunidades de negócios que chegavam com o progresso, Almeida foi sócio fundador da primeira usina hidrelétrica do país, inaugurada em 1889, em Juiz de Fora (MG). A Companhia Mineira de Eletricidade, que construiu a usina, também foi responsável pela iluminação pública elétrica em Juiz de Fora. O barão, claro, foi um dos participantes e financiadores da modernidade que aumentou o conforto da população.
Assessoria da Câmara de Petrópolis
Antiga mansão do Barão de Guaraciaba, chamada de Palácio Amarelo, hoje é sede da Câmara Municipal de Petrópolis, no Rio de Janeiro
Dono de um estilo de vida condizente com a nobreza imperial, o Barão de Guaraciaba possuía uma confortável residência na Tijuca, no Rio de Janeiro, e outra em Petrópolis, destino de veraneio preferido dos ricos e da nobreza.
Na cidade serrana construiu uma mansão que posteriormente foi chamada de Palácio Amarelo e que hoje abriga a Câmara Municipal. Também fazia diversas viagens para a Europa, principalmente para Paris, onde enviou seus filhos para estudar.
"Guaraciaba distinguiu-se por ter sido financeiramente o mais bem-sucedido negro do Brasil pré-republicano. Ele se tornou o primeiro barão negro do Império, notabilizando-se pela beneficência em favor das Santas Casas", afirma a historiadora e escritora Mary Del Priore.
Segundo ela, Almeida fazia parte de um pequeno grupo de mestiços de origem africana que conseguiram ascender financeira e socialmente.
Mônica de Souza Destro/Arquivo da família
Após a proclamação da República, Guaraciaba começou a se desfazer dos seus bens, mas viveu uma vida bastante confortável até sua morte
O preconceito da cor, porém, permanecia arraigado na sociedade brasileira, independentemente da posição financeira, diz Priore. Alguns desses empreendedores, a exemplo do Barão de Guaraciaba, conquistaram ou compraram seus títulos de nobreza junto ao Império, sendo por isso chamados na época de "barões de chocolate", em alusão ao tom da pele.
"O sangue negro corria nas melhores famílias. Não faltavam casamentos de 'barões de chocolate' com brancas", completa a historiadora.
Após a proclamação da República, Guaraciaba começou a se desfazer dos seus bens, mas viveu uma vida bastante confortável até morrer, na casa de uma das filhas, no Rio de Janeiro, em 1901, aos 75 anos. Seus herdeiros, inclusive alguns ex-escravos agraciados pelo dono e que permaneceram com o patrão após a alforria, receberam dinheiro e propriedades, e se espalharam pelos Estados do Rio de Janeiro e Minas Gerais.
"Ele foi um grande empreendedor que acabou banqueiro, homem de negócios, fazendeiro e senhor de escravidão. É preciso empenho e coragem dos historiadores para estudar esses símbolos bem-sucedidos de mestiçagem", diz Mary Del Priore, que resgata um pouco da história do Barão de Guaraciaba em seu livro "Histórias da Gente Brasileira".
Fonte: BBC / UOL
Achei interessante dividir.
Xbox One: Jogando Skyrim
PC: Jogando Civilization
Celular: Jogando Fantasy Defense - O jogo sumiu de meu celuar e da Playstore!
|